Petrobras estuda duplicar capacidade de fábricas de fertilizantes
A Petrobras estuda duplicar a capacidade de suas fábricas de fertilizantes, um movimento que sinaliza a retomada da produção no setor após anos de desinvestimento. A iniciativa alinha a estatal às diretrizes do governo federal para reduzir a dependência externa do agronegócio, visando fortalecer a segurança alimentar do país e garantir maior autonomia na oferta de insumos cruciais para a agricultura.
A Petrobras avalia a duplicação da capacidade de produção de suas unidades de fertilizantes, o que representa uma mudança estratégica da companhia no setor. A medida, ainda em fase de estudos, marca o retorno da estatal a um segmento que foi alvo de desinvestimentos nos últimos anos e se alinha à política do governo federal de fortalecer a indústria nacional de insumos agrícolas.
Essa iniciativa é crucial para o agronegócio brasileiro, que hoje depende acentuadamente da importação de fertilizantes. O país importa cerca de 70% dos nitrogenados consumidos, além de 85% do potássio e 50% dos fosfatados, com um consumo total que superou 40 milhões de toneladas em 2022. A expansão da produção interna busca, assim, mitigar essa vulnerabilidade e garantir maior estabilidade aos custos de produção no campo.
Historicamente, a Petrobras teve uma trajetória complexa no setor de fertilizantes. A partir de 2016, a estatal buscou se desfazer de suas unidades, as chamadas Fafens, como parte de um plano de desinvestimentos focado em ativos de exploração e produção de petróleo e gás, especialmente no pré-sal. As fábricas de Araucária (Ansa), Bahia (Fafen-BA) e Sergipe (Fafen-SE) foram hibernadas ou arrendadas nesse processo.
A atual gestão da Petrobras, em consonância com o governo federal, tem sinalizado a produção de fertilizantes como um pilar estratégico para o país. A decisão de reavaliar e potencialmente expandir a capacidade reflete uma mudança de prioridade, buscando contribuir para a segurança alimentar nacional e reduzir a exposição a choques de oferta e preço no mercado internacional, como os observados em crises geopolíticas recentes.
A viabilidade econômica da duplicação da capacidade está diretamente ligada ao preço do gás natural no Brasil, principal matéria-prima para a produção de fertilizantes nitrogenados. A Nova Lei do Gás (Lei nº 14.134/2021), que busca baratear o insumo pela abertura do mercado, é um fator determinante para a competitividade desses projetos. Um custo de gás mais acessível é fundamental para que a produção nacional possa competir com os grandes produtores globais, como Estados Unidos, Rússia e países do Oriente Médio.
A Petrobras atuaria como executora e investidora direta, com o Ministério de Minas e Energia (MME) e o Conselho de Administração da companhia balizando as diretrizes. Empresas como a Unigel, que atualmente arrenda as Fafen-BA e Fafen-SE, também são importantes nesse cenário, e o futuro de seus contratos poderia ser impactado por uma eventual retomada plena da produção pela estatal ou por novos modelos de negócio.
A expansão da produção de fertilizantes pela Petrobras pode gerar um aumento substancial da demanda por gás natural, o que, por sua vez, influenciaria a formação de preços no mercado doméstico e impulsionaria a necessidade de novas infraestruturas de escoamento e transporte. No longo prazo, essa estabilização dos custos de insumos para o agronegócio, que representa cerca de 25% do PIB, pode ajudar a mitigar a pressão inflacionária sobre os alimentos.
Embora a duplicação da capacidade não elimine a dependência externa de fertilizantes, ela pode reduzir significativamente a parcela de importação de nitrogenados, impactando positivamente a balança comercial do agronegócio. A estratégia se assemelha à de outras petroleiras estatais, como a Saudi Aramco, que diversificaram para petroquímicos e fertilizantes, verticalizando sua cadeia de valor.
O estágio atual de "estudo" indica que a decisão final de investimento ainda não foi tomada. Os próximos passos incluem a conclusão de análises aprofundadas de viabilidade técnica, econômica e ambiental, a posterior aprovação do projeto pelo Conselho de Administração da Petrobras e a definição do modelo de negócio mais adequado, seja por investimento próprio, parcerias estratégicas ou novos arranjos de arrendamento.
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