Armazenamento de energia se torna prioridade no Brasil com avanço de renováveis
O desafio central do setor elétrico brasileiro migrou da geração para o armazenamento de energia, impulsionado pela expansão acelerada de fontes intermitentes como solar e eólica. Analistas e players do setor apontam as baterias como solução crucial para estabilizar a rede e otimizar o uso da infraestrutura existente.
O sistema elétrico brasileiro passa por uma transformação profunda, e especialistas do setor apontam que o principal desafio deixou de ser apenas a geração de energia para se concentrar no seu armazenamento. Essa mudança de foco é impulsionada pela crescente participação de fontes renováveis intermitentes, como a solar e a eólica, que exigem maior flexibilidade e resiliência da rede para assegurar a segurança do suprimento.
Historicamente, o Brasil dependeu da flexibilidade operacional de seus grandes reservatórios hidrelétricos para equilibrar a oferta e a demanda de energia. No entanto, a menor disponibilidade hídrica e a robusta expansão de parques eólicos, que somam mais de 25 GW, e de usinas solares fotovoltaicas, que ultrapassam 40 GW de capacidade instalada (considerando geração distribuída e centralizada), evidenciaram a necessidade de novas soluções para gerenciar a variabilidade inerente a essas fontes.
Nesse contexto, as tecnologias de armazenamento de energia por baterias despontam como um elemento estratégico. Globalmente, o mercado de baterias de íon-lítio tem crescido exponencialmente, com custos que caíram mais de 80% na última década. Isso as torna cada vez mais competitivas e viáveis para aplicações em larga escala no setor elétrico, com projeções de atingir centenas de GW de capacidade instalada até 2030.
No Brasil, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) atua como o principal órgão regulador, buscando estabelecer as bases para a inserção dessas tecnologias. O Ministério de Minas e Energia (MME) define as diretrizes de política energética, enquanto o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) monitora diretamente os impactos da intermitência e vislumbra os benefícios da flexibilidade que o armazenamento pode oferecer à operação da rede.
Apesar do reconhecimento de sua importância, o país ainda carece de um marco regulatório específico e consolidado para o armazenamento de energia elétrica como um ativo autônomo. As baterias são frequentemente tratadas como componentes de projetos de geração híbridos ou de infraestrutura de transmissão e distribuição, o que gera lacunas regulatórias, especialmente quanto à remuneração de serviços ancilares e à participação plena no mercado de energia.
A ANEEL tem avançado em sua Agenda Regulatória, com iniciativas como a Consulta Pública 025/2020 e a Resolução Normativa 1.000/2021, que trouxe algumas disposições iniciais. No entanto, o setor, representado por entidades como a Associação Brasileira de Armazenamento de Energia (ABSAE), aguarda um ambiente mais claro e previsível para viabilizar investimentos e permitir que geradores, distribuidores e grandes consumidores explorem todo o potencial dessas soluções.
A ampla adoção do armazenamento de energia promete impactos multifacetados. Além de mitigar a intermitência das fontes renováveis e elevar a segurança e confiabilidade do sistema, a tecnologia pode otimizar o uso da infraestrutura de transmissão e distribuição, postergando a necessidade de investimentos de expansão custosos. Para o consumidor, a expectativa é de maior estabilidade tarifária e a abertura para novos modelos de negócio, como a gestão ativa da demanda e a formação de comunidades energéticas.
Países como os Estados Unidos, com destaque para Califórnia e Texas, e a Austrália, já são referências na implementação de grandes projetos de armazenamento, frequentemente integrados a parques solares e eólicos. A experiência da bateria de Hornsdale Power Reserve, na Austrália, por exemplo, demonstrou a capacidade de estabilizar a rede e fornecer serviços ancilares de forma ágil, servindo de modelo para a integração de renováveis em larga escala.
A criação de um ambiente regulatório favorável é o passo mais urgente para que o Brasil acompanhe o ritmo global. A inclusão de requisitos de armazenamento em futuros leilões de energia, ou a realização de leilões dedicados à tecnologia, são possibilidades em estudo que podem acelerar a inserção das baterias na matriz elétrica nacional, consolidando a transição energética com maior segurança e eficiência.
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