El Niño ameaça reservatórios e projeta aumento da tarifa de energia em 2027
O fenômeno climático El Niño, com sua combinação de secas e temperaturas elevadas, deve pressionar o sistema elétrico brasileiro e resultar em um encarecimento das tarifas de energia a partir de 2027. A menor disponibilidade hídrica para as hidrelétricas e o aumento do consumo por climatização são os principais fatores por trás da projeção, segundo análises de especialistas do setor.

O setor elétrico brasileiro se prepara para os impactos do El Niño, cujas projeções atuais apontam para um cenário de pressão sobre as tarifas de energia elétrica a partir de 2027. A ameaça reside na dupla face do fenômeno: a redução do regime de chuvas, que afeta diretamente os níveis dos reservatórios, e o aumento do consumo de eletricidade, impulsionado pelas temperaturas mais elevadas em grande parte do país.
David Zylbersztajn, colunista do CNN Infra, destaca que o El Niño desequilibra diversas frentes, indo além da geração de eletricidade. Ele alerta para os reflexos na produção agrícola, que podem impactar a oferta de biocombustíveis – um componente significativo da matriz energética brasileira que historicamente ajudou a mitigar aumentos de preços nos combustíveis.
Quanto à geração elétrica, as hidrelétricas funcionam como a principal “bateria” do Brasil. As bacias hidrográficas das regiões Centro-Oeste e Sudeste, que são os maiores polos de acumulação e consumo, são as mais vulneráveis. Embora os reservatórios estejam em patamares considerados adequados no momento, não há folga suficiente para suportar uma redução prolongada e intensa no volume de chuvas, conforme apontam as previsões meteorológicas para o fenômeno.
A elevação das temperaturas médias, por sua vez, impulsiona o consumo de eletricidade de forma atípica, principalmente pelo uso intensivo de sistemas de ar-condicionado em residências, comércios e escritórios. Essa demanda adicional, aliada à menor capacidade de geração hidrelétrica, tende a forçar o acionamento de usinas termelétricas. Estas operam com combustíveis fósseis e geram energia a um custo significativamente mais alto, que é repassado na conta de luz.
Historicamente, o Brasil demonstra alta vulnerabilidade climática em seu setor elétrico. Crises hídricas passadas, como a de 2001, que levou a racionamento, e as de 2014-2015 e 2021, que exigiram alto despacho térmico, evidenciam a sensibilidade do sistema à hidrologia. Essas experiências resultaram em maior diversificação da matriz e aprimoramento dos mecanismos de gestão de risco, mas a dependência hídrica, que representa 60% a 70% da capacidade instalada, ainda é um fator crítico.
Os custos adicionais gerados pelo acionamento térmico são incorporados nas Revisões Tarifárias Periódicas (RTPs) e Reajustes Tarifários Anuais (RTAs) conduzidos pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), que regulamenta a precificação e o repasse. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) é o responsável por coordenar a operação e o despacho das usinas, seguindo a ordem de mérito baseada no Custo Variável Unitário (CVU) de cada usina, conforme o arcabouço regulatório que inclui a Resolução Normativa ANEEL nº 1.000/2021.
O impacto esperado é um aumento nas tarifas de energia elétrica para os consumidores cativos a partir de 2027, e uma pressão no Preço de Liquidação de Diferenças (PLD) no mercado livre. Esse cenário pode comprometer a competitividade da indústria, onerar o orçamento doméstico e, potencialmente, afetar a atratividade de investimentos em fontes renováveis, caso os custos de geração se tornem mais voláteis e imprevisíveis. Zylbersztajn compara as termelétricas a um “seguro” para o sistema, que tem um custo inerente mesmo quando não utilizado, garantindo o suprimento em momentos de incerteza.
Outro ponto de atenção levantado por especialistas é o risco de incêndios provocados pela seca afetarem as linhas de transmissão de energia. A vasta e integrada infraestrutura de transmissão brasileira, embora robusta, torna-se vulnerável a esse tipo de ocorrência, adicionando uma camada extra de risco operacional e de segurança ao sistema elétrico nacional.
Os principais atores envolvidos são os consumidores finais, que arcarão com os custos; a ANEEL, que aprova as tarifas; o ONS, que opera o sistema; e o Ministério de Minas e Energia (MME), que define as políticas setoriais. Geradores hidrelétricos e termelétricos, bem como as distribuidoras de energia, também são diretamente impactados pelas condições operacionais e decisões regulatórias decorrentes do El Niño.
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