EPE projeta 20 GW de demanda para data centers em 10 anos; 5,6 GW médios até 2030
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) revisou drasticamente para cima sua projeção de demanda de energia para data centers, estimando 20 GW em uma década e 5,6 GW médios até 2030, um salto de quase 18 vezes em relação a 2026. Esse crescimento exponencial, impulsionado por nuvem e inteligência artificial, exige uma readequação urgente do planejamento da transmissão e levanta o debate sobre a alocação dos custos de infraestrutura.
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) projeta uma demanda de energia elétrica de 20 GW para data centers no Brasil em um horizonte de dez anos, com uma estimativa de 5,6 GW médios para 2030. O número representa um salto de quase 18 vezes em relação aos 315 MW médios registrados em 2026, equivalente a uma vez e meia o consumo máximo do estado do Rio de Janeiro, conforme apuração do Radar Energia com base nos estudos da EPE.
Essa projeção para 2030 foi revisada para cima em expressivos 2.196 MW médios, refletindo a expansão acelerada da infraestrutura digital impulsionada por tecnologias como computação em nuvem e inteligência artificial. Esse cenário estabelece um novo patamar para o planejamento da expansão do Sistema Interligado Nacional (SIN), forçando a antecipação de soluções e o encurtamento de cronogramas de obras de transmissão em até 18 meses.
As projeções da EPE são insumos cruciais para o Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE), cujo ciclo 2036 está em elaboração neste ano, e para o Programa de Expansão da Transmissão (PET/PELP). EPE, Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) precisarão recalibrar suas premissas de carga e lastro para garantir a robustez do sistema elétrico nacional.
No mercado, a demanda crescente dos data centers tende a gerar uma pressão altista para os preços de longo prazo na curva forward de energia, especialmente se a expansão da oferta e da transmissão não acompanhar o ritmo. Por outro lado, a concentração dessa nova carga no Nordeste, por exemplo, pode mitigar o curtailment de geração renovável, otimizando o despacho e potencialmente reduzindo a volatilidade do PLD regional ao absorver excedentes de produção eólica e solar.
O Ambiente de Contratação Livre (ACL) se consolida como a principal via para o fornecimento de energia a esses empreendimentos, que buscam acesso a energia renovável via autoprodução ou PPAs. Geradores de energia renovável, especialmente aqueles com projetos flexíveis, tendem a se beneficiar da demanda crescente e qualificada dos data centers, enquanto empresas de transmissão e distribuição vislumbram oportunidades de investimentos bilionários em reforços de rede.
Contudo, a principal tensão reside na forma como os custos da infraestrutura elétrica necessária para atender a essa demanda massiva serão alocados. O Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) propõe a criação de um 'encargo adicional específico', a ser calculado pela ANEEL, para que os custos de reforços na rede e de atendimento da carga não sejam incorporados às tarifas pagas por todos os consumidores brasileiros, protegendo os cativos de um repasse tarifário.
No âmbito legislativo, o Congresso Nacional discute o PL 3018/2024, que regulamenta data centers de inteligência artificial, estabelecendo regras para eficiência energética e metas ambientais. Além disso, o PL 278/2026, em análise no Senado, visa retomar o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), que suspende tributos federais na aquisição de equipamentos, após a medida provisória original perder a validade em fevereiro de 2026.
Essa projeção da EPE se insere em um esforço contínuo de planejamento. O Radar Energia já havia noticiado em 18 de agosto de 2026 que a EPE intensificava a análise de data centers no planejamento da transmissão, aprimorando sua metodologia para acompanhar esses grandes consumidores de energia com perfil de carga constante, essencial para a crescente digitalização da economia.
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