IEA: Demanda global de gás cai 0,5% em 2026, mas choque em Ormuz aperta oferta e preços
A Agência Internacional de Energia (IEA) projeta o terceiro ano consecutivo de queda na demanda global de gás natural em 2026, com retração de 0,5% (20 bcm). Simultaneamente, o fechamento do Estreito de Ormuz impõe um choque de oferta de GNL, elevando os preços spot na Ásia e Europa. O relatório do 3º trimestre de 2026 detalha a volatilidade e o aperto nos mercados, estimando perdas cumulativas de oferta de GNL em 140 bcm até 2030, mesmo com a reabertura gradual do estreito.
A demanda global por gás natural deve recuar 0,5% em 2026, o equivalente a 20 bilhões de metros cúbicos (bcm), marcando o terceiro declínio anual nesta década, conforme o "Gas Market Report, Q3-2026 – Analysis" da Agência Internacional de Energia (IEA), publicado em 7 de julho. Contudo, o mercado global de gás enfrenta um aperto significativo de oferta, impulsionado pelo fechamento do Estreito de Ormuz em fevereiro deste ano, que elevou a volatilidade e os preços spot na Ásia e Europa para patamares significativamente acima dos níveis de 2025.
O relatório da IEA aponta que a retração da demanda é mais acentuada no Oriente Médio, com uma contração projetada de 4% devido a danos em instalações. Na Ásia e Europa, as quedas são de 0,5% e superior a 2%, respectivamente, reflexo dos preços elevados e do avanço das fontes renováveis na matriz energética. Em contrapartida, a Eurásia se destaca com um aumento no consumo, de 638 bcm em 2025 para 658 bcm em 2026, e na produção, que deve atingir 865 bcm.
A oferta global de GNL sofreu um choque significativo com a interrupção no Estreito de Ormuz, rota crucial, responsável por quase 20% do fornecimento global. Entre março e junho de 2026, as cargas do Catar e dos Emirados Árabes Unidos caíram 35 bcm, uma redução de 80% em relação ao mesmo período de 2025. Esse declínio foi parcialmente mitigado por um aumento de 18% (27 bcm) na produção de novos projetos na América do Norte e África.
A consequência direta no mercado foi a elevação dos preços. O benchmark europeu TTF registrou alta de 32% na comparação anual, atingindo uma média de quase US$ 16 por MBtu no segundo trimestre de 2026. No mesmo período, os preços spot de GNL na Ásia dispararam 45% na comparação anual, chegando a uma média de US$ 17,5/MBtu. A volatilidade do preço TTF saltou para cerca de 170% em março, refletindo a incerteza exacerbada pela interrupção do suprimento. Em comparação, o preço do Gás Natural (Henry Hub) nos EUA está hoje em US$ 3,22.
Esse cenário de preços elevados impactou diretamente os custos da geração elétrica. As usinas a gás viram seus custos aumentarem em mais de 20%, superando US$ 140/MWh entre março e junho, tornando-as mais caras que usinas a carvão menos eficientes. Isso incentiva a troca de gás por carvão na geração de energia em regiões como Ásia e Europa, alterando a dinâmica da matriz energética e os custos.
No longo prazo, a IEA estima perdas cumulativas de oferta de GNL entre 2026 e 2030 em 140 bcm, equivalente a 15% da nova oferta global de GNL esperada para o período. Esse déficit estrutural, impulsionado por interrupções e danos à infraestrutura no Oriente Médio, incluindo a instalação de Ras Laffan, no Catar, não será totalmente compensado pelo incremento de 27 bcm na produção de novos projetos na América do Norte e África.
O mercado global de gás natural, incluindo traders, consumidores e produtores, enfrenta um ambiente de maior volatilidade de preços e incerteza. Indústrias intensivas em gás, como a de fertilizantes, já sentem o impacto, com redução da produção devido aos altos custos. Enquanto Catar e Emirados Árabes Unidos perdem volume de exportação, América do Norte e África ganham participação, reconfigurando a geopolítica do suprimento.
A IEA projeta a reabertura total do Estreito de Ormuz no terceiro trimestre de 2026 e a restauração completa das operações em instalações não danificadas no início do quarto trimestre. As entregas de GNL do Catar e dos Emirados Árabes Unidos devem aumentar progressivamente entre julho e outubro. Contudo, o impacto das interrupções na projeção de crescimento da oferta manterá os mercados mais apertados do que o esperado nos próximos dois anos, 2026 e 2027.
A análise da IEA destaca a tensão crítica entre a segurança do suprimento global de gás e a instabilidade geopolítica, exemplificada pelo fechamento do Estreito de Ormuz. A dependência de rotas e regiões concentradas expõe o mercado a riscos significativos, impulsionando a necessidade de diversificação e resiliência nas cadeias de valor, um desafio contínuo para importadores e exportadores em um cenário global imprevisível.
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