ONS intensifica monitoramento do El Niño e riscos a reservatórios no segundo semestre
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) intensifica o monitoramento dos impactos do fenômeno El Niño sobre o regime de chuvas e os níveis dos reservatórios, especialmente no Sul e Sudeste/Centro-Oeste, com foco no segundo semestre do ano. A vigilância busca antecipar cenários de escassez hídrica que podem exigir maior despacho termelétrico e elevar os custos de energia para consumidores e a indústria.
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) intensifica o monitoramento do fenômeno El Niño e seus potenciais efeitos sobre o balanço hídrico das principais bacias do Sistema Interligado Nacional (SIN) nos próximos meses. A preocupação central é o regime de chuvas e a recuperação dos níveis dos reservatórios, fatores cruciais para a segurança do suprimento elétrico brasileiro, cuja matriz é majoritariamente hidrelétrica.
A vigilância do ONS é motivada pelo histórico de vulnerabilidade hidrológica do país, onde eventos climáticos como o El Niño e La Niña impactam diretamente a disponibilidade de água para geração de energia. Crises hídricas recentes, como as de 2014-2015 e a severa seca de 2021 – considerada uma das piores em 91 anos –, serviram de precedentes, evidenciando a necessidade de monitoramento constante para evitar colapsos e o risco de racionamento.
A matriz elétrica brasileira é composta por 60% a 70% de hidrelétricas, tornando-a altamente sensível às variações pluviométricas. O subsistema Sudeste/Centro-Oeste, por exemplo, concentra cerca de 70% da capacidade de armazenamento de água do SIN, o que o torna um ponto focal na avaliação de riscos. Um El Niño mais intenso pode resultar em um regime de chuvas abaixo da média para regiões estratégicas, comprometendo a recarga dos reservatórios.
Em um cenário de hidrologia desfavorável, a principal medida para garantir o suprimento é o acionamento de usinas termelétricas, que possuem um custo de geração significativamente mais alto. Essa decisão é tomada pelo Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), presidido pelo Ministério de Minas e Energia (MME), com base nos relatórios técnicos e projeções do ONS. A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) é a responsável por regular o setor e ajustar as bandeiras tarifárias, repassando esses custos adicionais aos consumidores.
A atuação do ONS e do CMSE é balizada pela Lei nº 10.848/2004, que estruturou o modelo do setor elétrico e instituiu essas entidades para garantir a segurança do suprimento. Resoluções da ANEEL e portarias do MME detalham os procedimentos operacionais e os mecanismos de cálculo das tarifas, incluindo as bandeiras tarifárias, destinadas a cobrir os custos extras decorrentes de um cenário hidrológico adverso e do despacho de usinas mais caras.
Os impactos de um possível agravamento do El Niño no segundo semestre são diretos e abrangentes. A redução dos níveis dos reservatórios, especialmente no Sul do país e, potencialmente, no Sudeste/Centro-Oeste, levaria a um maior despacho de termelétricas. Isso resultaria em um aumento expressivo do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), refletindo a escassez de energia barata e impactando diretamente os custos de geração.
Para o consumidor final, o cenário implicaria bandeiras tarifárias mais elevadas, encarecendo a conta de luz tanto no mercado cativo quanto para os grandes consumidores do mercado livre. A indústria, por sua vez, enfrentaria pressões inflacionárias e uma perda de competitividade devido aos custos energéticos mais altos. Essa situação testaria a segurança energética do país, exigindo medidas de gestão de risco mais robustas por parte de todos os agentes.
O Brasil, com sua forte dependência hidrelétrica, compartilha desafios semelhantes com outros países como Colômbia e Peru durante eventos de El Niño. A experiência da seca de 2021, que forçou o governo a adotar medidas emergenciais – como o acionamento massivo de termelétricas e campanhas de uso consciente de energia para evitar o racionamento –, reforça a criticidade do monitoramento atual.
Acompanhar os prognósticos climáticos e as projeções do ONS é fundamental para o planejamento e a gestão de riscos no setor. A capacidade de adaptação e a agilidade nas decisões estratégicas do CMSE serão cruciais para mitigar os impactos de um El Niño mais severo, buscando equilibrar a segurança do suprimento com a moderação dos custos para a sociedade e a economia.
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