Brasil instala quase 6 vezes mais solar do que o projetado há uma década
A capacidade instalada de energia solar no Brasil superou a marca de 40 GW, um volume quase seis vezes maior do que as projeções governamentais mais otimistas feitas pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) há uma década. O avanço, impulsionado pela geração distribuída e a queda de custos, posiciona a fonte solar como a segunda maior da matriz elétrica nacional.
A capacidade instalada de energia solar no Brasil atingiu a marca de 40 GW, um volume quase seis vezes maior do que o projetado há uma década pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME). As estimativas de uma década atrás, presentes em documentos como o Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) 2022, publicado em 2013, indicavam uma expansão que dificilmente ultrapassaria 5 GW a 7 GW.
O crescimento exponencial reflete uma subestimação do potencial da tecnologia fotovoltaica no planejamento energético brasileiro. Naquele momento, a energia solar ainda era incipiente na matriz elétrica, com custos de instalação mais elevados e um arcabouço regulatório em fase de amadurecimento, o que resultou em projeções naturalmente conservadoras por parte dos órgãos de planejamento.
Atualmente, a energia solar é a segunda maior fonte da matriz elétrica brasileira, superada apenas pela hidrelétrica. Do total de 40 GW, a maior parte, cerca de 28 GW, é proveniente da geração distribuída (GD), instalada em telhados e pequenos terrenos de consumidores, evidenciando a capilaridade e a ampla adesão da tecnologia em diferentes segmentos.
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) é a principal responsável pelas projeções de expansão do setor, enquanto a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) desempenha papel fundamental na regulação da geração distribuída. O *boom* da solar beneficiou diretamente consumidores que investiram em GD, empresas instaladoras, fabricantes de equipamentos e investidores em grandes usinas de geração centralizada.
O principal impulsionador regulatório para o avanço da geração distribuída foi a Resolução Normativa ANEEL nº 482/2012, que estabeleceu o sistema de compensação de energia elétrica, conhecido como *net metering*. Essa medida permitiu que consumidores gerassem sua própria energia e abatessem o excedente da sua conta de luz, tornando o investimento financeiramente atrativo. A regulamentação foi posteriormente revisada pela RN 687/2015 e consolidada pela Lei nº 14.300/2022, que estabeleceu o marco legal da GD.
A inclusão consistente da fonte solar em leilões de energia centralizada, a partir de 2014, marcou uma virada na percepção do setor sobre a competitividade da tecnologia. Desde então, a queda vertiginosa dos custos de equipamentos fotovoltaicos em escala global, aliada à abundante irradiação solar no Brasil, acelerou ainda mais o ritmo de implantação de projetos.
O rápido avanço da energia solar tem impactos significativos na diversificação da matriz elétrica, contribuindo para a segurança energética do país e reduzindo a dependência de fontes térmicas e hídricas, especialmente em períodos de escassez hídrica. Contudo, o modelo de subsídio da GD, que isenta consumidores-geradores de alguns encargos, gerou debates sobre a distribuição de custos na tarifa dos demais consumidores do mercado cativo. Essa questão foi parcialmente endereçada pela Lei 14.300/2022.
O fenômeno de superação das projeções não é exclusivo do Brasil; países como Alemanha e China também registraram um crescimento da energia solar muito acima das expectativas iniciais. A combinação de políticas de incentivo e a contínua redução dos custos da tecnologia tem sido um motor global para a expansão das fontes limpas.
As projeções mais recentes da EPE, como os Planos Decenais de Expansão de Energia (PDEs) 2032 e 2033, já incorporam um cenário muito mais otimista para a energia solar, refletindo o aprendizado e a maturidade da tecnologia. Em vigor desde 2023, a Lei 14.300/2022 estabeleceu um período de transição para as regras da GD, introduzindo a cobrança gradual da TUSD Fio B para novos projetos, o que pode influenciar a atratividade econômica de futuros investimentos no segmento.
O setor agora acompanha a consolidação dos efeitos da nova regulamentação da GD e a continuidade dos leilões de energia para a fonte centralizada, que serão cruciais para manter o ritmo de crescimento e garantir a integração eficiente da solar na matriz elétrica brasileira.
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