Conflito no Golfo Pérsico eleva preços do gás e expõe vulnerabilidade do Brasil, aponta Abegás
O conflito entre EUA e Irã em 2026 no Golfo Pérsico alterou as expectativas de oferta global de GNL, elevando os preços internacionais e recolocando o risco geopolítico no centro da formação de custos. A ABEGÁS analisa que, apesar da produção doméstica, o Brasil permanece vulnerável, com impactos diretos nos custos de geração elétrica, no PLD e na competitividade industrial, evidenciando a urgência de reformas no mercado de gás.
A guerra Rússia-Ucrânia em 2022 marcou uma ruptura estrutural no mercado internacional de gás natural. Até então, a Europa dependia fortemente do gás russo, com preços relativamente estáveis. A interrupção gradual desses fluxos provocou uma corrida global por cargas de GNL, elevando os preços nos principais hubs internacionais a níveis históricos. O hub europeu TTF registrou preços superiores a $100/MMBtu no auge da crise de 2022, enquanto o JKM, referência para o mercado asiático de GNL, ultrapassou $60/MMBtu. Nos Estados Unidos, embora o Henry Hub tenha permanecido significativamente abaixo dos níveis europeus e asiáticos, devido à abundante produção doméstica, também experimentou forte valorização, alcançando patamares próximos de $10/MMBtu.
A partir de 2023, um processo gradual de normalização teve início. A destruição de demanda na indústria europeia, o aumento das importações de GNL por terminais recém-construídos na Europa e a expectativa de entrada em operação de uma grande onda de novos projetos de liquefação nos Estados Unidos, Catar, Canadá, México e África levaram analistas a projetar um cenário de excesso de oferta em 2026-2027, com estimativas de que mais de 200 bilhões de m3/ano de nova capacidade entrariam no mercado nesse período. Assim, esperava-se uma convergência dos preços internacionais para níveis significativamente inferiores aos registrados no início da guerra.
Essa expectativa foi profundamente alterada pelo conflito EUA/Irã em 2026, que afetou diretamente o Golfo Pérsico, por onde transitam 20% de todo o comércio mundial de GNL via Estreito de Ormuz. Além dos riscos à navegação, houve interrupções na produção e na logística do Catar e Abu Dhabi. Caso o estrangulamento continue até o final de 2026, a oferta de GNL pode cair em pelo menos 110 bilhões de m3. A Agência Internacional de Energia concluiu que o mercado, que vinha apresentando sinais de afrouxamento desde o segundo semestre de 2025, voltou a uma situação de aperto estrutural.
Os reflexos foram imediatos. Os preços do JKM voltaram a superar os europeus, refletindo a maior exposição da Ásia às interrupções do Golfo. A volatilidade aumentou significativamente, enquanto a Europa voltou a competir agressivamente por cargas de GNL para recompor seus estoques antes do inverno. No momento, os preços internacionais se mantêm altos, mas inferiores aos de 2022 ($15-18/MMBtu), devido à destruição de demanda, ao fuel switch e aos estoques europeus relativamente elevados.
Para o Brasil, esses preços são muito altos e os impactos são relevantes, embora distintos daqueles observados na Europa. O país possui produção doméstica bruta de gás natural elevada, mas continua dependente de importações de GNL para complementar o atendimento da demanda, sobretudo durante períodos de despacho intenso das usinas termelétricas.
Quando os preços internacionais do GNL sobem, o custo marginal de suprimento do sistema brasileiro aumenta rapidamente. Consequentemente, elevam-se os custos de geração elétrica, pressionando o PLD – Preço de Liquidação das Diferenças – e os encargos do setor elétrico. Os consumidores industriais que dependem do mix de gás importado enfrentam maiores custos de produção, reduzindo sua competitividade.
Essa conjuntura também evidencia uma fragilidade estrutural da política brasileira de gás natural. Enquanto diversos países procuram reduzir sua exposição aos preços spot de GNL por meio de contratos de longo prazo e maior diversificação de fornecedores, o Brasil continua convivendo com elevados preços internos mesmo dispondo de abundantes reservas nacionais. Os custos da infraestrutura de escoamento e processamento, associada à limitada concorrência na oferta doméstica, levam o consumidor brasileiro a pagar preços superiores aos internacionais.
O conflito com o Irã destaca a importância de acelerar as reformas do mercado brasileiro de gás. Quanto maior a volatilidade internacional, maior seria o valor econômico da produção doméstica. A expansão e o acesso não discriminatório às unidades de escoamento e processamento, o aumento da concorrência na comercialização e maior transparência na formação dos preços são elementos centrais para reduzir a vulnerabilidade do país aos choques externos.
A guerra no Oriente Médio interrompeu temporariamente a esperada trajetória de abundância do suprimento de GNL e recolocou o risco geopolítico no centro da formação dos preços internacionais. Para o Brasil, o episódio demonstra que possuir grandes reservas não é suficiente: sem um mercado doméstico competitivo e eficiente, o país continuará exposto às oscilações do mercado internacional e seus consumidores continuarão pagando um dos preços mais caros entre os grandes produtores mundiais.
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