ONS poupa água no Sul para enfrentar El Niño e evitar seca no Norte
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) iniciou uma operação especial para poupar água em reservatórios da região Sul, incluindo Itaipu, como medida preventiva contra os efeitos de um El Niño de forte intensidade previsto para 2026. A estratégia visa compensar a esperada redução das chuvas na região Norte, crucial para o atendimento da demanda de pico do Sistema Interligado Nacional (SIN) e para mitigar o risco de acionamento excessivo de térmicas mais caras.

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) iniciou a retenção de água nos reservatórios de hidrelétricas da região Sul e em Itaipu, em preparação para um El Niño de forte intensidade previsto para atingir o Brasil em 2026. Essa medida preventiva visa formar uma reserva estratégica para compensar a provável redução das chuvas na região Norte, onde estão localizadas usinas cruciais para o suprimento de energia no horário de pico de consumo, no início da noite.
A principal preocupação do ONS reside na capacidade de atendimento da demanda de pico, momento em que a geração solar, por exemplo, não está ativa. Usinas estruturantes do Norte, como Belo Monte (PA) e Jirau e Santo Antônio (RO), desempenham um papel vital nesse período. Sem água suficiente nessas bacias, o sistema se torna mais dependente de térmicas, que são mais caras e, consequentemente, elevam a conta de luz para o consumidor final, além de comprometerem a sustentabilidade da matriz energética.
Segundo Alexandre Zucarato, diretor de Planejamento do ONS, a estratégia consiste em aproveitar o atual período chuvoso na região Sul para acumular volume nos reservatórios, para uso no segundo semestre. Durante o segundo semestre, os níveis dos reservatórios das regiões Sudeste e Centro-Oeste – consideradas a “caixa d’água” do setor elétrico por concentrarem cerca de dois terços da capacidade de armazenamento do país – tendem a baixar, recuperando-se apenas com as chuvas de verão.
A meta é manter os reservatórios dos rios Grande e Paranaíba, que formam o rio Paraná e onde está Itaipu, o mais cheios possível até meados de setembro, antes da transição para o período seco. Esses rios, por si só, já representam dois terços da capacidade de armazenamento do subsistema Sudeste/Centro-Oeste. Essa manobra cria uma “reserva de potência” para o caso de atraso das chuvas, oferecendo flexibilidade à operação do Sistema Interligado Nacional (SIN) em um cenário de incerteza climática.
O cenário de um El Niño intenso em 2026, projetado por agências dos EUA, reacende o alerta para a vulnerabilidade hídrica do sistema elétrico brasileiro, que possui um histórico de crises como as de 2001, 2014-2015 e 2021. A experiência com eventos climáticos extremos tem impulsionado o ONS a refinar suas estratégias preventivas, incluindo um esquema emergencial aprovado no fim de 2025, que autoriza cortes de geração em situações de risco para evitar colapsos.
Além da gestão dos grandes reservatórios, o ONS tem atuado também em situações de excesso de energia, como no primeiro domingo de junho, quando determinou cortes de geração de pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) e térmicas a biomassa. O operador elabora agora um protocolo de corte mais abrangente, que pode incluir fazendas solares, caso as medidas atuais não sejam suficientes para manter a estabilidade do sistema em cenários tanto de escassez quanto de superávit pontual.
O impacto na tarifa de energia para o consumidor final é uma preocupação real, a depender da intensidade do fenômeno climático e da necessidade de acionamento de térmicas. Para as pequenas geradoras, a inclusão em protocolos de corte pode representar perdas de receita e gerar insegurança para futuros investimentos em geração distribuída e centralizada de menor porte, o que altera a dinâmica de mercado para esses empreendimentos. A operação do ONS, portanto, busca equilibrar a segurança energética com os custos e impactos setoriais envolvidos.
O “conturbado leilão” para contratação de novas térmicas, alvo de questionamentos judiciais, reflete a busca por maior segurança no atendimento da demanda de pico, complementando a base hídrica. A estratégia de poupar água no Sul para compensar a seca no Norte remete a operações interligadas observadas em crises hídricas anteriores, quando a otimização do uso dos reservatórios e a importação de energia de regiões mais favoráveis foram cruciais para evitar racionamentos mais severos.
Fonte
Matéria produzida pela redação do Radar Energia com base em informações de Folha de S.Paulo. Consulte o material original para validação técnica e jurídica.
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