Raízen protocola recuperação extrajudicial para reestruturar dívida de R$ 64,7 bilhões
A Raízen protocolou na Justiça de São Paulo seu Plano de Recuperação Extrajudicial, buscando reestruturar R$ 64,7 bilhões em dívidas com a adesão de mais de 80% dos credores financeiros. O plano prevê um aporte de R$ 3,5 bilhões da Shell, conversão de R$ 29 bilhões em ações e a segregação da companhia em duas empresas distintas.
A Raízen S.A. (RAIZ4) protocolou, em 5 de junho de 2026, seu Plano de Recuperação Extrajudicial (PRE) na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. A iniciativa visa reestruturar uma dívida de R$ 64,7 bilhões, configurando a maior reestruturação extrajudicial da história do Brasil. O plano já conta com a adesão de 80,15% dos credores financeiros, superando o quórum legal exigido pela Lei nº 11.101/2005.
O PRE detalha um aporte de R$ 3,5 bilhões pela Shell, acionista relevante da companhia, com a possibilidade de injeção adicional de R$ 500 milhões pela Aguassanta. Uma parte substancial da dívida, cerca de R$ 29 bilhões (aproximadamente 45% do total), será convertida em ações da Raízen a um preço de R$ 0,25 por papel. Essa conversão resultará em mais de 80% do capital social da Raízen nas mãos dos credores, enquanto a fatia da Cosan, atual controladora, será diluída para um patamar entre 3% e 4%.
Os 55% restantes da dívida serão renegociados sob novas condições. Para a Raízen Combustíveis, os novos títulos terão remuneração de CDI + 2,75% ao ano ou 8,50% ao ano em dólar. Já para a Raízen Energia, a taxa será de CDI + 1,25% ao ano ou 7,00% ao ano em dólar, com a opção de capitalização de juros nos primeiros três anos, visando aliviar o fluxo de caixa da empresa no período inicial da reestruturação.
Além da reconfiguração da estrutura de capital, o PRE contempla uma segregação estratégica dos negócios da Raízen em duas entidades distintas. A Raízen Combustíveis focará exclusivamente na distribuição de combustíveis no mercado brasileiro, enquanto a Raízen Energia abrangerá as operações de etanol, açúcar, bioenergia e a presença na Argentina. Essa separação jurídica e operacional, prevista para ser concluída até o final de 2027, busca otimizar a gestão e a alocação de capital para cada segmento, abrindo caminho para potenciais desinvestimentos que fortaleçam a posição financeira.
A governança da Raízen passará por uma transformação significativa. Com a diluição da Cosan e a entrada massiva dos credores no capital social, o Conselho de Administração terá uma nova composição a partir de março de 2027, com quatro dos sete membros indicados pelos credores, que também assumirão a presidência do colegiado. O CFO Lorival Nogueira Luz Jr. acumulará a função de Chief Restructuring Officer (CRO), garantindo a continuidade da gestão durante o processo.
Credores de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) com valores de até R$ 9.750 sofrerão um haircut de 25% sobre o principal, com pagamento à vista. Para os demais credores financeiros, a opção de converter seus créditos em ações ou refinanciá-los oferece alternativas para a recuperação de seus investimentos. A ação da Raízen (RAIZ4) é negociada hoje a R$ 0,38, valor acima do preço de conversão de R$ 0,25 previsto no plano.
A homologação judicial do plano pela 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo é o próximo passo, após o qual se abrirá um período de 30 dias para eventuais objeções. Uma vez homologado, o acordo vinculará toda a base credora, garantindo a efetividade da reestruturação. A transferência dos recursos da Shell e a concretização da capitalização de dívida estão programadas para o primeiro trimestre de 2027.
O plano de recuperação extrajudicial da Raízen tem escopo exclusivamente financeiro, sem impactar diretamente tarifas de energia, encargos setoriais como TUSD/TUST ou ESS/ESS-RE, nem o mercado de energia livre (ACL/ACR) ou o Preço de Liquidação de Diferenças (PLD). As obrigações da companhia com clientes, fornecedores e parceiros comerciais seguirão inalteradas, mantendo a normalidade das operações comerciais da Raízen.
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