Raízen registra prejuízo de R$ 27,1 bilhões na safra 2025/26 e avança em recuperação extrajudicial
A Raízen reportou um prejuízo líquido de R$ 27,135 bilhões no ano-safra 2025/26, resultado que culminou em um plano de recuperação extrajudicial com adesão de mais de 80% dos credores, prevendo aporte da Shell e conversão de dívida em ações. A reestruturação da dívida de R$ 58,2 bilhões e a redução do portfólio de unidades de bioenergia marcam uma profunda mudança estratégica para a companhia, pressionada por fatores climáticos e volatilidade de mercado.
A Raízen S.A. encerrou o ano-safra 2025/26 com um prejuízo líquido de R$ 27,135 bilhões, conforme comunicado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em 30 de junho, refletindo uma deterioração financeira que já havia se manifestado no quarto trimestre com um prejuízo de R$ 7,3 bilhões. O resultado, que levou a empresa a um processo de recuperação extrajudicial, sinaliza uma reconfiguração drástica na estrutura de capital e na estratégia operacional de um dos maiores players do setor de bioenergia.
A pressão financeira sobre a companhia é evidenciada pelo salto da dívida líquida, que alcançou R$ 58,2 bilhões ao final do quarto trimestre da safra 2025/26, um aumento de 69,9% em relação ao ano anterior. Esse cenário impôs a necessidade de um plano robusto de reestruturação, que já conta com a adesão de mais de 80% dos credores e foi protocolado em março deste ano.
O plano de recuperação extrajudicial prevê um aumento de capital de R$ 3,5 bilhões a ser injetado pela Shell, uma das principais acionistas da Raízen. Além disso, 45% dos créditos detidos pelos credores serão convertidos em ações da empresa, enquanto o saldo remanescente da dívida passará por um processo de refinanciamento, aliviando o passivo de curto e médio prazo.
No campo operacional, a Raízen anunciou uma redução estratégica de seu portfólio de unidades de açúcar e etanol, que passará a operar com 24 usinas. Essa mudança reflete, em parte, os desafios enfrentados pela divisão de bioenergia, que viu a moagem consolidada de cana-de-açúcar recuar quase 10%, totalizando 70,5 milhões de toneladas, impactada por condições climáticas adversas e pela volatilidade dos preços das commodities agrícolas.
Apesar do desempenho negativo no segmento de bioenergia, o braço de distribuição de combustíveis da Raízen no Brasil apresentou resultados positivos, com um aumento de 60,4% no Ebitda ajustado, atingindo R$ 1,7 bilhão. Esse contraste sublinha a resiliência do setor de distribuição em um ambiente de mercado desafiador, embora não tenha sido suficiente para compensar as perdas do segmento de produção de etanol e açúcar.
Para fortalecer sua posição financeira, a Raízen também busca concluir um plano de desinvestimentos da ordem de R$ 12 bilhões. Desse montante, cerca de R$ 5 bilhões já foram captados, mas a concretização total depende da conclusão da venda de ativos na Argentina, um movimento crucial para a sustentabilidade da empresa no longo prazo.
A reestruturação da Raízen, sob a supervisão da CVM e amparada pela Lei nº 11.101/2005 (Lei de Recuperação Judicial e Extrajudicial), é um marco para o setor de bioenergia. A injeção de capital pela Shell e a renegociação da dívida são vitais para a manutenção da capacidade produtiva da empresa e para a estabilidade do mercado de biocombustíveis, onde a Raízen detém uma fatia significativa.
O processo de recuperação extrajudicial, com a conversão de dívidas em capital, altera significativamente a governança e a participação acionária, redefinindo o peso dos credores na estrutura da companhia. A Shell, por sua vez, reforça seu papel estratégico ao prover o capital necessário para a continuidade das operações, demonstrando confiança no potencial de recuperação da empresa.
Ainda que a Raízen opere sob as normas da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para seus diversos segmentos, o foco imediato está na consolidação do plano de reestruturação. A capacidade da empresa de equilibrar os custos operacionais com os desafios de mercado, ao mesmo tempo em que avança nos desinvestimentos, será determinante para sua trajetória futura.
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