Revisão do GHG Protocol preocupa Vale com exigência de renováveis em tempo real
A mineradora Vale manifestou preocupação com a proposta de revisão do GHG Protocol, o padrão global para contabilização de emissões corporativas. A mudança pode instituir a contabilização horária da geração e consumo de eletricidade renovável, impactando o reconhecimento de seus investimentos em descarbonização. Essa evolução nos padrões globais de sustentabilidade busca maior precisão nas alegações de energia limpa e visa combater o "greenwashing".
A mineradora Vale, uma das maiores do mundo, expressou preocupação com a potencial revisão do GHG Protocol, o padrão global para contabilização de emissões corporativas. A mudança em discussão pode exigir que as empresas passem a contabilizar a geração e o consumo de eletricidade renovável em base horária, e não mais anualmente. Essa alteração impactaria substancialmente o reconhecimento de seus esforços e investimentos em descarbonização.
A proposta, impulsionada pelo World Resources Institute (WRI) e pelo World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), busca maior granularidade e precisão nas alegações de energia renovável. O objetivo é alinhar a contabilidade de emissões à realidade da geração e consumo. Essa evolução do GHG Protocol, que atualizou sua orientação de Escopo 2 em 2015 com métodos baseados em localização e mercado, visa coibir o "greenwashing" e atender à crescente demanda por energia livre de carbono 24 horas por dia, sete dias por semana.
Para a Vale, que possui metas ambiciosas de descarbonização e um portfólio robusto de energia renovável contratada e autoproduzida, a exigência de "time-matching" (casamento horário entre geração e consumo) pode desvalorizar investimentos passados. A metodologia atual, que permite o "match" anual, é a base para a elegibilidade de Certificados de Energia Renovável (I-RECs), que também seriam impactados pela mudança.
O Brasil, com sua matriz elétrica predominantemente renovável – acima de 80% –, já confere uma vantagem natural em termos de baixa intensidade de carbono na geração. Contudo, mesmo para grandes consumidores intensivos como a Vale, que busca ser 100% abastecida por energia renovável no país até 2025, a nova regra pode impor desafios operacionais e financeiros consideráveis.
A revisão em debate foca no "GHG Protocol Corporate Standard" e, especificamente, no "Scope 2 Guidance", que trata das emissões indiretas da eletricidade adquirida. Embora seja um padrão voluntário, sua adoção global o estabeleceu como um marco de fato para relatórios de sustentabilidade e para o reconhecimento de esforços de descarbonização por investidores e pelo mercado em geral.
A adaptação à contabilização horária pode exigir da Vale e de outras grandes empresas investimentos adicionais em soluções de armazenamento de energia, como baterias, ou a renegociação de Contratos de Compra e Venda de Energia (PPAs) para garantir o "match" em cada hora. Essa mudança aumentaria a complexidade e os custos de seus programas de sustentabilidade, mesmo com a abertura do mercado livre de energia para todos os consumidores de alta tensão a partir de 2024, que movimenta volumes significativos de renováveis.
A iniciativa 24/7 Carbon-Free Energy (CFE), já liderada por empresas de tecnologia como Google e Microsoft, que buscam igualar o consumo de eletricidade com a geração renovável em todas as horas e locais de operação, serve como um precedente. Essa abordagem voluntária de vanguarda sinaliza a direção que o GHG Protocol pode tomar, alinhando-se às melhores práticas globais de descarbonização e transparência, embora com custos e exigências técnicas mais elevadas.
A medida visa, em última instância, aumentar a credibilidade das metas de descarbonização corporativas, garantindo que as empresas realmente contribuam para a descarbonização da rede elétrica em todos os momentos, e não apenas em um balanço anual. Contudo, o desafio reside em como implementar essa granularidade sem penalizar excessivamente os esforços já realizados e os investimentos em curso.
O WRI e o WBCSD estão conduzindo um processo de consulta pública e grupos de trabalho para a revisão do GHG Protocol, com a proposta de "time-matching" sendo um ponto central de debate. Não há um prazo final definido para a publicação da nova orientação, mas a expectativa é que ocorra nos próximos anos. Isso exigirá que empresas e o mercado de I-RECs acompanhem de perto as decisões e se adaptem às novas exigências de granularidade para manter a validade de suas alegações de sustentabilidade.
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