El Niño se intensifica, com mais de 90% de chance de ser 'muito forte', elevando pressão sobre custos de energia no Brasil
O El Niño se fortaleceu no último mês e tem mais de 90% de chance de se tornar um evento "muito forte" até o início de 2027, com 69% de probabilidade de ser "histórico", superando eventos desde 1950, segundo o boletim da NOAA. O cenário eleva a pressão sobre o setor elétrico brasileiro, que já se prepara para maior despacho termelétrico e repasse de custos via bandeiras tarifárias.
O El Niño se intensificou no último mês e tem mais de 90% de chance de se tornar um evento "muito forte" entre o final de 2026 e o início de 2027, conforme o boletim "ENSO Diagnostic Discussion" da NOAA, de 13 de agosto. O relatório eleva a probabilidade para 69% de que o fenômeno atinja proporções "históricas", superando a força de todos os El Niños registrados desde 1950, com anomalias de temperatura da superfície do mar de +2.5°C ou mais.
Os dados da NOAA indicam anomalias de temperatura da superfície do mar superiores a +2.0°C no Pacífico Equatorial Leste, com o índice Niño-3.4 em +1.4°C em julho. A persistência do fenômeno é estimada em 97% até março/abril de 2027 no Hemisfério Sul, com um pico esperado entre outubro de 2026 e janeiro de 2027. Essa projeção intensifica o alerta para o setor elétrico brasileiro, que opera um sistema predominantemente hidrelétrico.
A principal preocupação é a diminuição das chuvas nas bacias do Sudeste e Centro-Oeste, regiões que concentram cerca de 70% da capacidade de armazenamento do Sistema Interligado Nacional (SIN). Embora os reservatórios dessas áreas estivessem em 66% da capacidade em junho de 2026, projeções indicam que, em um cenário de Super El Niño, podem encerrar o período úmido de abril de 2027 com cerca de 70% da capacidade, em comparação com 80% sem o fenômeno, exigindo maior despacho termelétrico.
Em resposta à iminente pressão hidrológica, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) já aprovou a antecipação da geração de 1,8 GW de energia adicional de cinco empresas, para garantir a segurança do sistema em 2026 e início de 2027. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) monitora a situação dos reservatórios, enquanto ANEEL e MME emitiram alertas para que os agentes se preparem, mapeando riscos em toda a cadeia de geração, distribuição e transmissão.
O mercado de energia já reflete as incertezas do El Niño. Contratos de curto prazo para setembro e outubro de 2026 registraram queda devido às chuvas no Sul, mas contratos com vencimento mais distante, como dezembro de 2026 e o primeiro trimestre de 2027, apresentaram alta. O PLD no Sudeste/Centro-Oeste, atualmente em R$ 126,29/MWh, tende a refletir essa volatilidade, com projeções indicando oscilações entre R$ 75/MWh e R$ 590/MWh no segundo semestre de 2026.
Os custos adicionais decorrentes do maior despacho termelétrico serão repassados aos consumidores via ativação das bandeiras tarifárias. Um estudo da Ampere Consultoria e TR Soluções sugere que um Super El Niño poderia adicionar 2,1 pontos percentuais aos ajustes ou revisões tarifárias das distribuidoras em 2027. Por exemplo, um aumento de 5% na tarifa sem El Niño poderia chegar a 7,1% com o fenômeno. O Banco Central do Brasil projeta um efeito de 0,3 pontos percentuais no IPCA em 2026 e 0,4 pontos em 2027 devido ao El Niño.
Nesse cenário, geradores termelétricos tendem a ser beneficiados com o maior despacho e o consequente aumento da receita. Traders com boa gestão de risco podem capitalizar a alta volatilidade do PLD. Em contrapartida, os consumidores, tanto cativos quanto livres, arcarão com os custos mais altos da energia, seja pelas bandeiras tarifárias ou pelo aumento do PLD. As distribuidoras enfrentarão o desafio de gerenciar e repassar esses custos de aquisição de energia, o que pode pressionar suas finanças e a percepção dos consumidores.
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